sábado, 24 de julho de 2010

Os sofrimentos do Jovem Werther. (Trechos)

"(...)Tudo neste mundo leva às mesmas mesquinharias; e aquele que, para agradar aos
outros, e não por paixão ou necessidade pessoal, se esgota no trabalho para ganhar dinheiro,
honrarias, ou o que quer que seja, aquele que agir desse modo, digam o que disserem: um louco."

"- Por que é que os homens - gritei - não podem falar de uma coisa sem logo declarar: "Isto é
insensato aquilo é razoável, aqueloutro é bom, isso aí é mau".? De que servem todas essas
palavras? Você já conseguiu, graças a elas, penetrar as circunstâncias ocultas de uma ação? Sabe
destrinçar com rigorosa certeza as causas que a produzem, que a tornaram inevitável? Se assim
fosse, não enunciaria com tanta rapidez os seus julgamentos.
Alberto replicou-me:
- Você há de concordar comigo que certas ações são sempre criminosas, qualquer que seja o seu
móvel.
Dei de ombros e acrescentei:
- Todavia, meu caro, ainda nesse ponto há exceções- É verdade que o roubo é um crime; mas o
homem que se torna ladrão para salvar-se e salvar os seus de morrer de fome merece a compaixão ou o castigo? Quem atirará a primeira pedra no esposo que, numa explosão de cólera justa, mata a esposa infiel e o infame sedutor; na jovem que, num momento de vertigem, se abandona à ebriedade irresistível do amor? Nossos próprios juízes, esses pedantes de coração gelado, deixarse-iam comover e seriam capazes de suspender o julgamento.
- Oh! essa gente razoável! - exclamei eu, sorrindo. - Paixão! Embriaguez! Loucura! E vocês se
conservam tão calmos, tão indiferentes, vocês, os homens da moral! Esmurram o bebado, repelem o louco, cheios - de asco e passam adiante, como o sacrificador, agradeeus,
como o fariseu, por não haver feito vocês um desses desgraçados!. . . Tenho as minhas paixões
roçaram sem loucura, e disso não me arrependo, porque só erguei a compreender, numa certa
medida em todos os tempos, sempre foram tratados , o ébrios e como loucos os homens
extraordinários que realizaram grandes coisas, as coisas que pareciam impossíveis ... Mas, ainda na vida ordinária, nada mais tolerável do que a todo momento ouvir gritar, sempre que um homem pratica uma ação intrépida, nobre e invista: "Esse homem está bebado! É um louco...Que vergonha, ó todos vocês que vivem em jejum! Que vergonha, ó homens sensatos!
Ainda as suas quimeras! - disse Alberto. - Você exagera tudo! Desta vez, sem contradição possível,você o enganou-se, pelo menos em comparar o suicídio, que é o assunto em foco, com as grandes ações, quando não se pode considerá-lo senão como uma fraqueza. Decerto, é muito mais fácil morrer do que suportar com constância uma vida de tormentos.
Estive a ponto de estourar, porque não há argumento que tanto me faça perder a cabeça como um insignificante lugar-comum que me citam no momento em que falo com toda a alma. Entretanto, contive-me, cansado de ouvir essa banalidade, que já me aborreceu por mais de uma vez; mas respondi com alguma vivacidade:
- Você chama a isso fraqueza? Peço-lhe, não se deixe levar pelas aparencias! Um povo que geme sob o jugo de um tirano, você ousará acusá-lo de fraqueza se Ele explode e rompe, afinal, as suas cadeias? 0 homem que, tomado de espanto diante da sua casa incendiada, apela para todas as suas forças e transporta facilmente cargas que, de sangue frio, mal poderia empurrar; estoutro que, no auge do furor que lhe cause uma ofensa, se mede com seis adversários e vence-os, você dirá que são fracos? Muito bem, meu amigo, se um esforço considerável é uma prova de força, por que um esforço alucinado, febricitante, seria o contrário?
Alberto encarou-me e disse:
- Não se aborreça, mas os exemplos que você acaba de citar não me parecem adequados ao caso.
- Não importa - respondi eu; - já me censuraram mais de uma vez de ter um modo de raciocinar
que orça quase sempre pelo disparate. Vejamos, então, se de outra maneira poderemos fazer idéia daquilo que se passa no espírito de um homem, quando resolve deitar fora o fardo, de ordinário agradável, da vida, porque só podemos falar de sentimentos que nós entendemos bem.
- A natureza humana - prossegui - e limitada: ela suporta a alegria, a tristeza, a dor, até certo ponto; se o ultrapassar, sucumbirá. A questão não é saber, pois, se um homem é forte ou fraco, mas se pode aturar a medida de sofrimento, moral ou físico, não importa, que lhe é imposta. Neste caso, acho tão absurdo dizer que uni homem é covarde por haver dado cabo da própria vida, como seria absurdo chamar de covarde o que corre de uma febre maligna.
- Isso e um paradoxo, um verdadeiro paradoxo! exclamou Alberto.
Repliquei-lhe:
- Não tanto como você supõe. Você há de convir que nos chamamos doença mortal a que esgota o organismo de tal modo, que as forças ficam em parte consumidas e em parte incapazes de agir; assim, o organismo não poderá mais reerguer-se, e por uma reação favorável, restabelecer o curso ordinário da vida ... Pois bem, meu amigo, apliquemos esta verificação ao espírito. Considere quanto o espírito do homem é limitado e como as idéias nele se fixam até que, atingindo o grau da paixão, lhe retiram completamente a calma, a faculdade de refletir, e o levam à perdição total. Não adianta que o homem razoável e de sangue frio se compenetre da ,situação do desgraçado e o exorte; seria o mesmo que o homem robusto, junto do leito de um enfermo, tentar transmitir-lhe uma parcela, mínima que seja, do seu vigor."
Goethe

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